O Poder da Família no Tratamento da Dependência Química e Álcool
O Poder da Família no Tratamento da Dependência Química e Álcool

Eu lembro a história de duas famílias que acompanhei no começo da minha carreira, quando eu fazia estágio ainda.
Duas histórias que foram decisivas para eu querer trabalhar com dependência química.
Antes de te contar essas histórias, é importante contextualizar minha situação na época.
Eu ainda estava na faculdade de Psicologia e tinha muitas escolhas importantes que eu precisava fazer.
Precisava escolher se eu ia trabalhar com empresas, com escolas ou com consultório… ainda tinha que escolher qual linha de estudos que eu seguiria – psicanálise, comportamental, existencial etc…
Na época, eu não tinha certeza de qual caminho eu seguiria. Mas tinha uma coisa que eu afirmava com alguma convicção: eu não quero trabalhar com dependência química e Álcool.
Isso porque eu tinha a imagem de um trabalho frustrante, de tentar ajudar pessoas que não querem ajuda, de lidar com situações complicadas demais em que eu não poderia fazer muita diferença.
Sendo assim, foi um período em que, meio sem escolha, comecei a me envolver com o universo do tratamento da dependência química.
E duas das famílias que acompanhei com ele me marcaram muito.
O Poder da Família no Tratamento da Dependência Química e Álcool
Afinal, elas me ensinaram a principal coisa que eu precisava saber para entrar sem medo na área da dependência química:
Que a família é o elemento mais poderoso (e menos utilizado) para o tratamento dos problemas com drogas.

A história da mãe que fez o
filho no auge da
dependência
química e Álcool aceitar ser
internado
A primeira história foi bastante chocante para mim.
Primeiro, porque era uma mãe com um filho dependente de crack gravíssimo, coisa que eu nunca tinha visto.
Isso significava que ela tinha chegado ao ponto de dormir com a porta do quarto trancada, por medo do filho.
Afinal de contas, o filho já tinha vendido praticamente tudo o que tinha na casa para usar droga e estava muito agressivo com ela.
Até o dia em que ela decidiu (com acompanhamento do Marco) que não ia aceitar mais aquilo. Que não aguentava mais e estava decidida a dar um basta.
Nesse dia, ela esperou que ele saísse de casa para usar droga como fazia todos os dias, mas dessa vez ela não ficou se lamentando por isso, apenas foi até a entrada da casa e trancou o portão.
Voltou, foi na direção do quarto do filho, arrumou uma mala para ele com algumas mudas de roupa, escova de dentes e desodorante. Levou essa mala até o portão e deixou lá, até que ele voltasse.
Assim que ele chegou em casa e viu o portão trancado, começou a fazer um escarcéu, berrando insultos e exigindo entrar.
O Poder da Família no Tratamento da Dependência Química e Álcool

Ela se direcionou com passos resignados até ele e disse, em tom calmo:
Não aguento mais… para mim está insuportável. Arrumei suas coisas e vou te levar para uma clínica de recuperação.
Como ela esperava, ele, sem nenhuma educação, recusou a oferta.
Ela então disse:
Tudo bem. Então pegue esta mala e vá viver sua vida. Eu não quero mais testemunhar a sua destruição. Quando você quiser se tratar, eu estou aqui para você.
Em meio a uma chuva de novos insultos que saíam da boca do filho, ela retornou para dentro de casa, triste, mas segura de que não tinha mais o que fazer.
Ela não abriu a porta para ele.
Ele ficou 5 dias fora, com algumas aparições no portão na tentativa de manipular a mãe para deixá-lo entrar em casa (tentando induzir culpa, pena e medo nela), sem sucesso.
Até que, no quinto dia, ele chamou a mãe no portão de casa e disse:
Ok mãe, eu aceito ir para uma clínica de recuperação. Não aguento mais também.
Aquilo, para mim, foi uma explosão dentro da minha cabeça.
Afinal, um dependente gravíssimo, sem nenhum interesse em tratamento algum, aceitou ser internado a partir de uma atitude da mãe.
Então, eu fiquei espantado com o poder que estava nas mãos dessa mãe para o tratamento do filho e que ela nunca tinha percebido.
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A história dos pais que fizeram o filho terminar o tratamento
em uma comunidade terapêutica, mesmo ele fugindo da
comunidade
Teve essa outra situação que também mexeu muito comigo.
Os pais, depois de muito sofrimento e luta, tinham conseguido internar o filho em uma comunidade terapêutica em Morretes.
Não sei se você sabe, mas comunidades terapêuticos trabalham com a porta aberta, ou seja, o paciente só fica lá voluntariamente. A hora que ele quer sair, ninguém vai segurá-lo lá dentro.
Enfim, em um período de crise, o filho fugiu da comunidade e, sei lá como, pois não tinha dinheiro nem nada, chegou em Curitiba e apareceu na porta da casa dos pais.
Chegou em um estado de dar dó, pois provavelmente tinha feito boa parte do trajeto caminhando.
Ao vê-lo ali, na porta de casa, naquele estado, os pais, com um aperto no coração, sabiam o que era necessário para o tratamento do filho.
Eles vinham, através dos atendimentos, se preparando para essa possibilidade.
Não abriram a porta e disseram:
O que você está fazendo aqui? Você está no meio de um tratamento. Pode voltar para a comunidade terapêutica terminar o que você começou.
Ao que o filho respondeu com um tom de desespero:
Mas como? Estou sem dinheiro, nem nada. Me deixem pelo menos entrar para tomar um banho e comer alguma coisa.
E os pais, cientes do seu papel e lutando como gladiadores contra seus instintos e suas emoções, responderam:
Não sabemos como você vai fazer. Mas estamos decididos a não te receber em casa antes que você termine o tratamento. Da mesma forma que você veio, encontre um jeito de voltar para lá.
Então, ele encontrou seu jeito e voltou para a comunidade terapêutica em Morretes. Terminou seu tratamento lá.
O Poder da Família no Tratamento da Dependência Química e Álcool

Contra todas as minhas expectativas e crenças sobre o
tratamento da dependência química e Álcool
Eu não conseguia acreditar, primeiro, em como os pais tiveram coragem de fazer aquilo.
Segundo, que aquilo realmente tinha funcionado para o filho seguir seu tratamento.
E, mais uma vez, eu testemunhei o poder oculto da família sobre a recuperação de um filho.
Aquilo me intrigou tanto, que eu fui estudar. Entender o que tinha acontecido. Eu precisava entender.
E descobri, obviamente, que cada caso é um caso, e que a solução não é simplesmente fechar a porta de casa para o filho e está tudo resolvido.
Mas esses dois casos nunca saíram da minha mente e foram meu ponto de partida para entender os mecanismos do poder da família sobre o tratamento da dependência química.
Ambos eram casos muito graves e foi o poder da família que fez com que tivessem um bom resultado.
E, desde então, eu me dediquei a estudar e a trabalhar com as famílias nos processos de tratamento dos problemas com drogas.
Um conhecimento oculto na área da dependência química e
Álcool
O Poder da Família no Tratamento da Dependência Química e Álcool

Li e estudei muito os livros sobre o assunto, especialmente do Dr. Eduardo Kalina, que fala de uma forma linda sobre esses mecanismos da família.
Depois, ainda descobri que ele dava aulas no mestrado em dependência química da Universidad del Salvador em Buenos Aires, e fui fazer o mestrado lá.
Minha motivação era entender ao máximo como extrair todo o poder da família no tratamento da dependência química.
Cá entre nós apenas, praticamente ignorei aquela parte chata e repetitiva do estudo sobre os tipos de drogas e seus efeitos… percebi que não fazia diferença nenhuma para os casos que davam certo.
E encontrei um conhecimento meio que oculto, meio que ignorado, que poderia fazer toda a diferença para o tratamento da dependência química e Álcool.
Depois fui descobrir que era um conhecimento de alguma forma já conhecido para alguns grupos de mútua ajuda, como o Amor Exigente, mas bastante desconhecido para os profissionais.
Um conhecimento que saia da mesmice que eram os estudos sobre drogas.
Um conhecimento que realmente oferecia uma saída muito palpável, que oferecia um método para explorar o poder da família no tratamento.
E depois disso, nunca mais deixei de trabalhar com famílias no tratamento da dependência química e de estudar esse tema.
Descobri minha missão dentro dessa área tão carente de
esperança e de profissionais que realmente fazem a diferença
Hoje, todos os meus esforços são no sentido de mostrar para o mundo que a família é o Pareto da Dependência Química – ou seja, que a família representa os 20% responsáveis pela maior parte dos resultados de um tratamento.
Sempre me perguntam – e qual é a taxa de sucesso do tratamento para dependência química e Álcool?
Eu respondo: depende. Usando ou não usando o poder da família?
Porque, sem usar o poder da família, é uma taxa bastante desanimadora. Mas quando a família descobre o seu poder, aí o tratamento se torna um processo de muita esperança.
E tudo começa pela capacitação da família. Sem o saber não existe poder. Precisa de conhecimento primeiro. Para depois descobrir o poder.
E é para dar esse saber para os pais que eu tenho dedicado boa parte do meu tempo hoje em dia.
Uma das formas que encontrei para isso foi através do Curso Filhos Sem Drogas. Se você é pai ou mãe e está vivendo o desafio de lidar com o uso de droga de um filho, sugiro que conheça o curso. É só clicar neste link aqui.

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